Cônsul Américo Fontenelle também foi acusado de assédio moral no Canadá em 2007

February 21, 2013

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O Cônsul acusado de assédio moral em Sydney já havia sido acusado pelo mesmo motivo em Toronto, no Canadá. Segue entrevista dele se defendendo, em 2007.

Em 2007, no Canadá, um e-mail com a cópia de uma denúncia caiu como uma bomba na comunidade brasileira em Toronto. A denúncia partiu do técnico de promoção comercial do Consulado Geral do Brasil em Toronto, Georges Cunningham Junior, brasileiro, que acusou o embaixador Américo Dyott Fontenelle, Cônsul Geral do Brasil, de discriminação, assédio moral e assédio sexual.

Nessa época, eu trabalhava como editora para a revista Gazeta Brazil, de Toronto. Houve um burburinho entre os brasileiros da comunidade a respeito de um e-mail acusando o cônsul de assediar moralmente os funcionários, então decidimos apurar o assunto.

Em sua carta às autoridades, Cunningham relatou que pela primeira vez em mais de 10 anos  de trabalho no Consulado Brasileiro em Toronto, estava de licença médica. Segundo o empregado, ele e seus colegas de trabalho apresentavam sintomas como depressão, insônia e aumento da pressão arterial.

Os trechos da denúncia onde relatam os tipos de abusos cometidos pelo Cônsul são de deixar todos de queixo caído, tais como se referir aos funcionários como “bicha louca”, “viadinho”, “mulherzinha”, além de dirigir frases como “eu sei que você não gosta da fruta”, “qual seu problema? você não gosta de transar com mulher?” e ainda pergunta para o funcionário “qual o tipo de homem que você gosta?” além de imitar um jeito afeminado para humilhar e ridicularizar ainda mais a vítima.

Ainda segundo a denúncia, palavrões eram parte essencial do vocabulário do Cônsul. “Vagabundo”, “débil mental” e “insignificante”, “cambada de filhos da puta” eram algumas das agressões constantes.

A lista de abusos e ofensas ainda segue enorme no documento. Com relação às funcionárias, o abuso e o assédio vão desde vasculhar bolsas sem autorização, pedir beijos, fazer perguntas obscenas e íntimas sobre a vida sexual das funcionárias e até mesmo se vangloriar do tamanho de seu pênis e de sua atividade sexual.

Muito embora as acusações fossem graves, durante a entrevista o Cônsul aparentou não ter muita pressa em se defender e passou um bom tempo, antes de começar a gravar a entrevista, falando sobre a reforma estrutural e funcional do Consulado. Ele disse, inclusive, que se achava bastante querido entre os funcionários, e que em seu aniversário ganhou um cartão de felicidades de uma garrafa de Ice Wine, “que não é barato”. De resto, o Cônsul passou o tempo todo se vangloriando de sua carreira.

A matéria foi um escândalo na época, mas não deu em nada, claro. Éramos apenas um jornaleco amador. O assunto foi arquivado, e o Cônsul, pelo que soube, rumou à Sydney.

Hoje, quando li uma notícia acusando o mesmo cônsul de assédio moral em Sydney, quase caí pra trás!

Segue íntegra da entrevista, publicada em agosto de 2007:

Como o senhor vê as acusações que vêm pesando contra o senhor, no caso de assédio sexual, homofobia, feitas pelo funcionário do Consulado, George Cunningham?

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Eu tenho conhecimento das acusações do Sr. George Cunningham. Não tenho conhecimento de acusações por outros funcionários. As acusaçõs do senhor George me surpreenderam, totalmente. Tomei conhecimento delas pela imprensa. Ele se encontrava nas últimas seis semanas, antes de fazer as acusações, em licença médica. Fui completamente surpreendido. Como cidadão, não aceito as acusações, são todas improcedentes. Ele me acusa de fazer perseguição a ele porque é homossexual; eu não sei das condições pessoais dele, ele nunca se manifestou sobre o assunto. Contato social não tenho com ele, e mais, ele dentro do Consulado não trabalha diretamente comigo, trabalha na área de promoção comercial. Ele não tem acesso à minha sala, eu não despacho com ele, a relação profissional dele se dá com intermediários, não diretamente comigo. Repudio todas essas acusações. A outra acusação que ele faz é de assédio sexual com as funcionárias, isso tambem não existe, espero que haja condições de isso tudo ser comprovado. Essas são as minhas explicações, como cidadão. Sou ministro de primeira classe do Itamaraty, mais alto cargo da carreira diplomática, e como cônsul geral em Toronto, designado pelo presidente da República portanto, tenho que limitar minhas declarações a um ponto muito importante, é que o Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores, diante das acusações dele, que estão incluídas em uma carta que ele dirige ao presidente da República e à várias outras autoridades brasileiras, já constituiu uma Comissão de Sindicância, que estará iniciando nos próximos dias aqui em Toronto. No momento, temos que aguardar os procedimentos dessa comissão de sindicância, que foi criada oficialmente pela portaria publicada no Boletim de Serviço do Ministerio das Relações Exterioes . O Itamaraty quando recebe uma acusação contra um funcionário de carreira, é o maior interessado em esclarecer os fatos.

Na internet, inclusive na imprensa brasileira, são inúmeras as publicações que já apresentam esse assunto em questão. Inclusive na imprensa brasileira, no Correio Braziliense, cita que o George afirma ter 13 testemunhas funcionários do Consulado, que confirmam essas acusações, e em outro site, uma funcionária afirma que o primeiro dia após essas denúncias feitas pelo George teria sido o dia mais tranquilo de trabalho dentro do Consulado. Como o senhor vê essas declarações e essa divulgação na mídia brasileira a respeito do assunto?

Como Cônsul Geral, a única coisa que posso dizer no momento, é que caberá à Comissão de Sindicância, estabelecida pelo Itamaraty, esclarecer os fatos. Como cidadão, tenho o direito de me defender, e só posso me lamentar que se esteja dando publicidade a uma acusação que não foi comprovada, que nenhum de nós pode saber qual vai ser o resultado. Estou com minha consciência pessoal e profissional absolutamente tranquila. Estou muito abalado pelo fato, sou um funcionário de carreira do Itamaraty, tenho 34 anos de carreira, tenho muita experiência em várias áreas, já servi em vários postos, duas vezes em Roma, Nova Iorque, Santiago, já fui chefe de divisão, chefe de departamento do Itamaraty, trabalhei na presidência da República duas vezes e, repito, fui surpreendido pelas acusações. Como Cônsul, como funcionário do Itamaraty, tenho que me limitar a dizer a vocês que nós temos que aguardar os trabalhos da Comissão de Sindicância, oficial, criada formalmente, que é pra valer, é de verdade. E como cidadão, peço a paciência de vocês, para aguardar mais uns dias o resultado desse trabalho. E lamento muito que uma acusação feita por um funcionário contratado localmente há 10 anos tenha tido repercussão, seja na imprensa brasileira ou na internet. Não posso acusar ninguém de ter provocado essa circulação da acusação, só lamento muito. Quero dizer de novo que o Consulado, apesar das acusações, está funcionando normalmente, eu estou funcionando normalmente. Então vamos aguardar o esclarecimento dos fatos.

O senhor afirma não ter contato com os funcionários diretamente, nem com o senhor George e nem com outras funcionárias que, parte da acusação de que você teria assediado sexualmente. Uma vez que o senhor afirma nao ter contato com os funcionários, ser ilegítima essa acusação, o senhor pretender entrar com alguma ação com relação às acusações?

Como cidadão, eu não pensei nisso ainda. No momento, minha função aqui, até para atender a comunidade brasileira, é fazer o Consulado funcionar e muito bem. E modéstia à parte, acho que o Consulado funciona muito bem. Desde que estou aqui, só temos recebido cumprimentos, agradecimentos. Tenho registros da reação seja do público canadense ou empresários. Só de visto, para vocês terem idéia, foram concecidos 17 mil no último ano. Houve um aumento de 29% na concessão de vistos, ou seja, mais turismo, mais empresários fazendo negócios no Brasil. Tenho várias, várias, comunicações de agradecimento da comunidade brasileira. Os vistos, por exemplo, eram concecidos em 60 dias, agora são concedidos em 5 dias. Essa é a realidade do Consulado. A área de promoção comercial, onde o senhor George trabalha, não sofreu impacto nenhum desse aumento de demanda, acompanhado por providências internas administrativas para que o funcionário possa continuar produzindo cada vez mais e melhor. Portanto, como um funcionário de carreira do Ministerio das Relacoes Exteriores, tenho que aguardar o resultado da Comissão de Sindicância, que é pra valer, é serio, é oficial e me submeterei a qualquer decisão. Como cidadão, eu agradeço muito a gentileza de vocês de virem conversar comigo, para que eu possa dar a minha versão dos fatos. Eu sou completamente inocente, não aceito as acusações de jeito nenhum.

Qual a relação do senhor com os funcionários e dos funcionários com o senhor?

Sou uma pessoa que mantém contato com os 22 funcionários do posto. Mas não é que não tenha relacao, mas o Consulado tem um organograma de organização. O senhor George, por exemplo, despacha com o diplomata que chefia o setor dele. Ele não vem à mim trazer papel para eu assinar. Ele despacha pelo diplomata. Nas questões de trabalho, relações trabalhistas, tem o chefe de administração do posto. Se ele tem um pedido de férias, ele vai primeiro ao chefe do setor de promoção comercial e depois ao centro de administração, ele não vem pedir as férias à mim. Se ele tem que decidir, submeter à decisão superior algum assunto do trabalho diário dele, a conversa dele é com o chefe do setor, nao diretamente comigo. Não é que eu não tenha contato ou que eu nunca tenha visto o senhor George aqui. Sim, eu o via aqui.

O senhor tem acesso aos funcionários, então?

Sim! Mas o que quero dizer é que assim como acontece em qualquer embaixada ou consulado do Brasil no exterior – vocês sabem que o serviço diplomático no Brasil tem 200 anos, é muito bem organizado. O que quero dizer não é que eu não veja os funcionários, não, eu tenho contato com os funcionários. Quando digo que não tenho contato com eles, nao é que eu queira dizer com isso que não sao verídicas eventuais acusações disso ou daquilo por que não tenho contato com eles. Não, eu os vejo. O que quero dizer é que o contato deles com o chefe é todo hierarquizado, no sistema de hierarquia funcional que se repete em todo Consulado e toda embaixada do Itamaraty no exterior. Relação pessoal eu não tenho, com ninguém. Tenho uma relação trabalhista com os funcionários aqui dentro. O que quero deixar muito claro, ao dizer que ele não tem acesso à mim, é que a relação diária deles com as pessoas aqui não passa por mim. Ele tem contato com os colegas do setor de promoção comercial, com o chefe de promoção comercial e com o chefe de administração do posto. Ele não vem a mim para conversar sobre um assunto. Agora, eu o vejo aqui dentro, vejo. Pode-se ver pelas novas instalações do Consulado que inclusive há uma distância muito grande entre a sala do chefe do posto, que é a minha sala, e a sala do Secom. Eu fico na ponta e o setor de promoção na outra. Ao olhar o layout, até fisicamente, vocês podem imaginar como isso funciona no dia-a-dia. Grande parte das divisórias entre os vários setores do Consulado não tem parede, são divisórias que tem a minha altura. O que quero dizer com isso, o trabalho é desenvolvido de forma transparente, as relações de trabalho sao conduzidas de forma transparente. Por isso tudo é que, desculpa, tenho que repetir, essa história me surpreendeu muitíssimo.

O senhor leu a acusação toda?

Li, em anexo à uma mensagem da jornalista que trabalha para a coluna do Claudio Humberto. Foi assim que eu li.

Com relação aos funcionários com o senhor, como vê essa relacão?

Dia 5 de julho, foi meu aniversário. Completei 54 anos de idade. De surpresa, os funcionários me deram um presente com um cartão de felicidades. Sempre achei que sou muito querido, continuo achando. Sou uma pssoa, como chefe, que faz questão de ter uma relação boa com os funcionários. Sempre achei que estava fazendo o bem deles, que estou fazendo, e que os funcionários gostam de mim. Além do cartão, de surpresa, os funcionários me deram uma garrafa de Ice Wine, que não é barato.

O senhor acha que existe uma forma de informalismo nas relações de trabalho, que talvez o senhor George tenha intepretado mal? Não existe brincadeira?

Do meu ponto de vista não. Informalismo nenhum. Essa é uma pergunta muito subjetiva. O que ele terá interpretado, só perguntando a ele. Eu digo aqui em tom de brincadeira que a gente não brinca aqui não, a gente brinca em casa, brinca na rua, mas eu sou uma pessoa muito treinada, já servi duas vezes na America do Norte, fui Conselheiro em Nova Iorque e Conselheiro no Canadá, sei como a sociedade funciona aqui. Sei que certos costumes das pessoas são diferentes, sou muito atento a isso, muito treinado. Não há informalismo que pudesse dar essa interpretação. Não estou fazendo nenhuma referência ao senhor George, mas, se você for perguntar ao assassino do John Lennon porque ele matou o John Lennon, ele terá uma explicação. Não estou fazendo nenhuma comparação ao funcionário que sempre respeitei, e apesar do que está acontecendo continuo a respeitar. Os diplomatas são muito criticados pelo excesso de formalismo. O diplomata é um profissional do formalismo.

O senhor consegue imaginar algum motivo para as acusações do George?

Motivos ele terá. Fui completamente surpreendido. Com 34 anos de experiência, fui completamente pego de supresa. Não tive uma indicação. Repito, ele estava de licença médica durante seis semanas quando enviou a carta. Só ele poderá determinar o que o levou a fazer isso. Fui completamente surpreendido essas últimas duas semanas. Tenho procurado analisar a situação friamente, objetivamente. Minha grande surpresa me leva a não conseguir entender o que o terá levado a fazer isso.

Já teve algum problema com funcionarios em algumas das embaixadas anteriores?

Nao, sou um funcionário modesto e exemplar. Nunca tive problemas. Tive uma carreira muito boa, com reconhecimento de mérito em todos os lugares. Sou um funcionário nota 10.

As acusações são improcedentes, então?

Quem me conhece, sabe, que não tem nada relacionado a isso, não existe isso. E a outra parte, que é assedio sexual , é um absurdo. Duvido que, como saiu publicado na imprensa que tem testemunhas, duvido.

Xingamentos, gritos?

Domingo retrasado, assistindo ao jogo Brasil e Argentina pela Copa América, dentro da minha casa, na hora que o Brasil faz um gol, posso ter dito alguma coisa. Mas não existe isso, não na minha função.

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